quarta-feira, 27 de junho de 2007

8 - A ideia de Deus e o Mundo

A Fé cristã vista do ponto vista filosófico e racional 

Introdução geral


Veja debaixo de Assuntos os 12 posts ligados com Religião e Filosofia... 


Eu fiz este trabalho a pensar em todos aqueles que se interessam pela filosofia, religião e as ciências em geral. 


O livro toca em muitas esferas da realidade e procura determinar aquilo que o cristianismo, a religião, a filosofia e a ciência dizem da realidade que podemos ver e da realidade que está para além dos nossos cinco sentidos.


Embora muitos estudiosos agarrem-se à ideia de que somos seres racionais, quando no entanto pensamos na pesquisa da realidade que está para além dos nossos cinco sentidos,  nós temos que incluir também o coração e não só a mente na busca dessa realidade sobrenatural.


Ninguém pode ter uma compreensão global da vida e do mundo só pelo uso do seu intelecto – ou razão. 


Afinal de contas a razão só nos permite conceber e compreender o mundo e a vida através da nossa própria perspectiva racional e cultural e de uma forma muito parcial.


É por essa razão que é errado dizer que nós somos unicamente seres racionais, pois além dos nossos pensamentos nós temos também sentimentos, emoções, impulsos e as crenças profundas que existem dentro da nossa alma.


Não se pode reduzir a nossa actividade cognitiva, assim como as nossas pesquisas filosóficas e religiosas unicamente à esfera do nosso raciocíno, ignorando o nosso lado sentimental e emocional e a faculdade que temos de crer num mundo sobrenatural que ultrapassa a esfera do racional e do natural.


Nós só podemos ter uma compreensão global da existência e dos relacionamentos humanos, se compreendermos que temos que envolver não somente o raciocínio, mas também o nosso coração nessa pesquisa/processo.


O raciocínio pode ser a sede dos nossos pensamentos, mas o coração é a sede dos nossos sentimentos, emoções, impulsos e crenças.


Por essa razão, neste trabalho, eu irei falar das três grandes actividades do ser humano na procura da compreensão global da existência, que são: o pensamento, o sentimento e a crença. Irei tentar mostrar que estas actividades não se contradizem, mas antes se completam. 


Claro que ao querer mostrar que o cristianismo é uma fé que “sente e crê”, irei salientar também que o cristianismo é uma fé  que “pensa”. É por isso que o título deste trabalho é A fé cristã vista do ponto vista filosófico e racional.


Neste livro eu procuro também dar uma explicação para questões misteriosas que estão ligadas com o nosso mundo natural, com a revelação bíblica e com o campo filosófico.


Vale a pena ler sobre a abordagem que faço acerca de alguns temas misteriosos relacionados com o universo, o homem e com Deus.
 

Capitulo 8 - A ideia de Deus e o mundo

I. Diversas ideias sobre Deus e o mundo


A. O politeísmo

1. O politeísmo nasceu de várias causas
2. O religiões monoteístas criaram muitos credos, santos e padroeiros
3. O judaísmo e o cristianismo tiraram a credibilidade ao poleteísmo.

B. O panteísmo

1. Deus é igual ao Todo existente.
2. Os três caminhos que conduzem ao panteísmo.
3. O panteísmo não tem noção de moralidade.
4. A raíz defeituosa do panteísmo é considerar que Deus é o Todo.

C. O deísmo

1. A diferença entre o deísmo e o teísmo
2. Os diversos tipo de deísmo
3. "Deus sim, o Evangelho não" é a base do deísmo
4. O deísmo morreu antes de John Wesley morrer

D. O monotéismo

1. O monoteísmo tem as as suas raízes na religião hebraica
2. O monoteísmo não é uma religião mas sim uma doutrina sobre Deus
3. A ideia monoteísta sobre a criação
4. A criação não é cosmocêntrica
5. A providência divina


I I. A ideia monoteísta sobre Deus e a criação

A. É a criação um acto (único) ou é uma actividade de Deus contínua

1. É a criação feita no tempo o tempo é parte da criação
2. É a criação um acto ou uma actividade eterna contínua

B. É difícil relacionar a ideia de Deus com a ideia do tempo e espaço

1. A compreensão das relações espaço e tempo
2. Sobre o tempo e o espaço

C. É a criação cosmocêntrica?

1. Não podemos limitar a criação de Deus somente ao universo
2. Deus é o centro de tudo e não o homem 

D. A providência divina

1. A providência é acima de tudo um conceito Bíblico e Cristã
2. Soberania de Deus e a responsabilidade humana



I. Diversas ideias sobre Deus e o mundo

Vamos ver nesta primeira secção as quatro grandes correntes de pensamento que procuram explicar  sobre “Deus na sua relação com o mundo”.



A. O politeísmo


1. O politeísmo nasceu de várias causas

São várias as causas que permitiram o desenvolvimento do politeísmo. Os deuses sem nomes amalgamavam com outros deuses. O casamento entre pessoas de tribos diferentes causavam uma combinação de deuses.


Os deuses das tribos fortes tornavam-se deuses nacionais. O politeísmo tem sido sempre a uma religião popular. E ainda hoje é assim.



2. As religiões monoteístas criaram muitos credos, santos e padroeiros

Mas nós vemos que no cristianismo, os cristãos não adoram só a Deus, pois afinal também adoram santos e padroeiros., embora é claro não possamos chamar ao Cristianismo uma religião "politeísta".


E há santos e padroeiros que se tornaram muito importantes e adorados, como por exemplo é o caso de Maria que atingiu um expoente máximo com o catolicismo, sendo considerada mesmo como mediadora entre Deus e os homens - ocupando quase a mesma posição que Cristo - sendo chamada a "Mãe de Deus".



O catequismo católico ensina que Maria não tem pecado original, e é chamada de "imaculada". O nome de Maria é invocado por todos os católicos, que rezam a ela em busca de ajuda e protecção. De certo Maria e outros santos e padroeiros tornaram-se "deuses" para os católicos".


O mesmo acontece com o islamismo e o judaísmo. Assim como cristianismo, o islamismo e o judaísmo embora tenham uma ortodoxia monoteísta, estas 3 religiões foram invadidos por muitos credos populares que de certo modo "divinizaram" muitos dos seus líderes e santos.


É por essa razão que nessas três religiões monoteístas,  há muito sítios em que se tornaram numa "folk religion" (religião popular) onde cada local venera e segue o seu santo ou padroeiro.



3. O judaísmo e o cristianismo tiraram a credibilidade ao politeísmo.

No entanto, voltando ao assunto do politeísmo, nós vemos que as denúncias dos profetas hebreus colocaram muitos problemas às ideias religiosas politeístas e, por final, a religião hebraica e o cristianismo fizeram o politeísmo perder a sua credibilidade e revelaram que o politeísmo afinal conduziu a religião à imoralidade e à idolatria.


A ideia de que a divindade era composta por uma multiplicidade de espíritos, foi ultrapassada pela ideia de que Deus é um espírito único, criador, sustentador e soberano do Universo.


"O politeísmo ficou onde a maré dos tempos o deixou".


Somente alguns pluralistas radicais poderiam objectar a veracidade do mesmo.


B. O panteísmo



1. Deus é igual ao todo existente

O panteísmo embora pretenda às vezes ser monoteísta, falta-lhe aquele lado só de Deus, que caracteriza a fé monoteísta.


"A equação geral do panteísmo é: Deus = ao existente (Deus é igual ao existente); não importando se o existente é espiritual ou material".


O sistema mais completo do Panteísmo é o da Índia. Mas, também esteve representado no Ocidente através do ensinamento de alguns filósofos. O Idealismo absoluto tem muito inclinação para o panteísmo, especialmente se tiver uma interpretação religiosa. Hegel, por exemplo, foi muitas vezes acusado de ser um panteísta, por causa da sua doutrina do Absoluto.



2. Os três caminhos que conduzem ao panteísmo

Em geral, há três caminhos que nos conduzem ao panteísmo:



a. A filosofia

O primeiro tem sido a filosofia. Há pouca ou nenhuma diferença entre o panteísmo e o monismo rígido, a não ser na questão da atribuição de predicados religiosos ao Todo.



b. A poesia e a arte

O segundo caminho tem sido através da poesia e da arte que através do seu romantismo tem muitas vezes concedido divindade à natureza.



c. O misticismo

Por último, temos o misticismo. Muitos místicos tem sido mais panteístas do que teístas.


3. O panteísmo não tem noção de moralidade

O panteísmo deu lugar ao monoteísmo, pois o monoteísmo satisfaz as aspirações das pessoas, dando-lhes aquilo que o panteísmo não consegue dar.


O panteísmo não resolve o problema da escolha entre aceitarmos a noção de Deus e a noção de um Todo, e a noção entre o bem e o mal, pois as noções encontram-se amalgamadas.


"Por isso, não se consegue caracterizar Deus no panteísmo, e o sentido moral não passa de um conceito muito superficial, tal é a forma como Deus, e o bem e o mal fazem parte da mesma coisa".


Os panteístas que tendo sido grandes moralistas, revelam mais uma das inconsistências do panteísmo, porque o Todo que o panteísmo defende como sendo Deus, tem dois pólos o mal e o bem.



4. A raiz defeituosa do panteísmo é considerar que Deus é o Todo

Portanto Deus é bom e mau, ao mesmo tempo! É alegria e a tristeza. É a paz e a guerra. É a saúde e a doença. É a vida e a morte.


O sistema acomodado do panteísmo mostra que Deus é um Deus intra-mundo. Mas a ideia teísta fala de um Deus extra-mundo.


"A raiz defeituosa do panteísmo é considerar que Deus é o Todo".


C. O deísmo



1. A diferença entre o deísmo e o teísmo

É fácil reconhecer a diferença entre o deísmo e o teísmo:


O deísmo defende a ideia de um Deus transcendente que criou o mundo e, depois, deixou seguir o seu curso desenvolvendo-se livremente. Não é um movimento, mas sim uma ideia que têm influenciado muitos movimentos.



2. Os diversos tipos de deísmo

Há diversas opiniões nos que acreditam nesta doutrina:



a. Deus vive despreocupado com o mundo

Há os que crêem num Deus que vive despreocupado com o mundo.



b. Deus é muito transcendente para recompensar ou castigar

E há aqueles que dizem não existir nada após a morte, porque Deus sendo tão transcendente não estabeleceu nem punições nem recompensas.



3. "Deus sim, mas não o Evangelho" é a base do deísmo

"A frase Deus mas não Evangelho dá uma ideia da base da doutrina do deísmo". O verdadeiro deísmo acredita num governo moral mas não na revelação bíblica divina.


O último movimento, inteiramente britânico, teve uma vida curta, terminando nos finais do século XVIII.


Toland, em 1696, refutou a ideia de mistério ligado com Deus, pois dizia que não havia em Deus nada que não pudesse ser compreendido pela razão. Collins, também atacou os milagres e a profecia tão defendida pelos evangelistas cristãos.


Mas, mais tarde, surgiu uma grande discussão à volta dos milagres e das profecias, que afinal não podem ser compreendido só pela razão. E dessa discussão muito acesa, veio subitamente o fim do deísmo.


Entretanto, o movimento Metodista, com John Wesley, deu início a uma nova discussão religiosa, muito interessante, embora controversa, que era a questão das obras de caridade, esquecida por causa da ênfase que se dava que a salvação é pela Graça e pela Fé e não pelas obras, a descoberta bíblica sensacional feita por Lutero, Calvino, que deu origem às refromas protestantes.


Nessa altura, os estudiosos que seguiam o deísmo, deixam o entusiasmo à volta das questões emanentes sobre a Graça e a Fé e voltam-se para nova discussão trazida por Wesley – as obras de caridade.


Então, Wesley confrontou o deísmo, não com palavras, mas com obras. Ele tornou Deus numa realidade. Ele salientou que quando o homem encontra a salvação pelo mistério da Graça e da Fé, isto não só lhe dá a salvação da alma, mas traz-lhe também as boas obras, assim como libertação, cura e emancipação da pessoa terrena em relação ao pecado.



4. O deísmo morreu antes de John Wesley morrer

O pensamento do deísmo defendia um cristianismo sem Cristo. Eles ignoravam a pessoa e a obra de Cristo.


O deísmo morreu antes de John Wesley morrer.


Mas apesar de ter perdido a sua expressão, alguns cientistas em nossos dias estão marcados pelo deísmo, e, por isso, o seu racionalismo está imbuído de um pouco de deísmo e não só de agnosticismo e ateísmo.


O deísmo é mecanicista e abstracto, e é uma ideia que permite que haja possibilidade de haver uma ligação entre Deus e o homem. O deísmo nunca reconheceu lugar para a adoração, a oração e a comunhão com Deus.


"Por isso, no fundo, o deísmo não é uma religião é uma filosofia".


D. O monoteísmo


A doutrina monoteísta defende a existência de um só Deus e separa Deus da criação. Deus é uma coisa, a criação é outra. No entanto para o Judaísmo e o Islamismo, o Cristianismo tornou-se apenas teísta (não mono) por causa da sua crença na trindade - que Deus se revela nas Escrituras em três pessoas.



1. O monoteísmo tem as suas raízes na religião hebraica

Historicamente, o monoteísmo tem a sua herança na mensagem dos profetas hebreus. O povo semita era politeísta, pois cada tribo adorava o seu Deus. Os hebreus foram o único povo semita que desenvolveu a ideia de um único Deus Yehavé ou Jeová. O cristianismo e o islamismo derivam o seu monoteísmo dos hebreus.


A ideia que defende que já havia povos monoteístas antes dos hebreus, não passa de uma suposição proveniente de uma escassez de factos. Os povos mais antigos mostravam um grande interesse pelos seus próprios deuses, não ligando muito importância aos deuses dos outros. Por essa razão, falavam pouco dos outros deuses.


O monoteísmo dos hebreus foi magnificamente transmitido até aos nossos tempos através de muitos factos históricos e também de documentos e literatura histórica, como por exemplo o Antigo Testamento. "Se houve povos monoteístas antes dos hebreus ou da mesma época, não transmitiram a sua descoberta monoteísta!"



2. O monoteísmo não é uma religião mas sim uma doutrina sobre Deus

O monoteísmo não é uma religião, mas simplesmente uma doutrina sobre Deus, ensinada nas grandes religiões - Cristianismo, Judaísmo e Islamismo. À parte da ideia monoteísta sobre Deus, estas três religiões não têm praticamente muitas outras doutrinas fundamentais comuns.


Mas, por causa da ideia monoteísta, há uma doutrina comum nestas religiões acerca do relacionamento entre Deus e o Homem, especialmente no que diz respeito à questão da criação e da providência divina.


Estas três religiões falam da criação e da providência divina.




I I. A ideia monoteísta sobre Deus e a criação

Andrew Lang disse que logo que o homem começou a fazer coisas, ele começou a pensar num criador das coisas. É claro que a ideia de um criador/criação começou numa época tão antiga, que não há documento ou testemunho histórico que lhe possa dar crédito.


"Mas toda a história do pensamento testemunha que o homem teve sempre a noção de um mundo criado por uma força poderosa e nunca a ideia de um mundo que existiu sempre, eternamente, sem criador".


Já no pensamento antigo atribuíam a criação a totens, animais ou às coisas. Vindo o politeísmo começaram a atribuir a criação aos deuses. O último estágio do pensamento filosófico antes do cristianismo, foi o pensamento grego e, antes deste, tínhamos o pensamento indo.


Pensamentos que também nunca anularam a questão de uma força criadora do universo. O cristianismo teve a sua origem no Judaísmo.


Ambos, defendem a ideia de um Deus criador.


Entretanto a ideia de criação levanta muitos perguntas, no que diz respeito ao seu processo como à sua relação com o espaço e com o tempo.


A. É a criação um acto (único) ou é uma actividade de Deus contínua


1. É a criação feita no tempo o tempo é parte da criação

Com o desenvolvimento da filosofia, começaram a surgir perguntas ligadas com o processo criativo, tais como:


É a criação feita no tempo? Se sim, Deus existe no tempo?


Ou é o tempo uma dimensão da criação?


Alguns tentaram responder, afirmando que a criação não é um acto, mas uma actividade, ou seja, a actividade própria (“self-activity”) imanente do Deus transcendente. Ou seja, o universo é simplesmente uma das actividades de Deus.



2. É a criação um acto ou uma actividade eterna contínua

Alguns filósofos disseram que a preservação do universo, só poderia manter-se com uma criação eterna contínua. Aquinas, crendo num princípio, acreditava numa criação de acto e não num processo contínuo e eterno imanente de um Deus eterno!


Um processo eterno e contínuo da criação levanta a questão do princípio. Por isso, talvez seja melhor, dizer que a criação é uma actividade divina, esquecendo por um pouco a questão da criação do universo, que

Deus criou dando-lhe uma ordem temporal e espacial. Isto, porque, de toda a maneira, não podemos crer que toda a actividade criadora de Deus está absorvida somente na criação do nosso universo, tal como o concebemos "com um princípio e tendo o homem como o seu centro, ou o ser criado por excelência".

Deus tem criado certamente outras esferas da existência - outros mundos - que não têm a haver forçosamente com a nossa criação, temporal e espacial, que teve um principio, e onde parece que o homem é o centro desta criação.


Neste caso, a criação de Deus é uma actividade contínua, mas composta de diversos actos. Nenhum acto é eterno.


Todos os actos de Deus tiveram um princípio e se calhar terão um fim, ou uma mudança, como a Bíblia parece claramente indicar que a nossa criação vai ter uma mudança, ou vai ser destruida e criados "novos céus e nova terra".


Isaías 51:16 Ponho as minhas palavras na tua boca e te protejo com a sombra da minha mão, para que eu estenda novos céus, funde nova terra e diga a Sião: Tu és o meu povo. 17 Pois eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá lembrança das coisas passadas, jamais haverá memória delas. 22 Porque, como os novos céus e a nova terra, que hei de fazer, estarão diante de mim, diz o SENHOR, assim há de estar a vossa posteridade e o vosso nome".


2 Pedro 3:13 "Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça".


Apocalipse 21:1 "Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe"


No que diz respeito ao universo, o mesmo é composto de átomos em dissolução, que parecem provar que não são eternos. O nosso universo é composto de acontecimentos que foram "acontecendo ou mudando' no tempo", parecendo claramente indicar que houve um princípio.


B. É difícil relacionar a ideia de Deus com a ideia do tempo e espaço


É muito difícil relacionar a ideia de Deus com a ideia de tempo ou a ideia de uma criação que teve um princípio. Para nós que vivemos no tempo é impossível formar concepções que não sejam contraditórias em si mesmo.



1. A compreensão das relações tempo e o espaço

Fala-se da noção espaço/tempo. Mas isto ajuda simplesmente ao pensarmos nos acontecimentos que fazem parte do nosso sistema de acontecimentos.


"Mas, o conceito espaço/tempo não fornece qualquer explicação no que diz respeito sobre a questão filosófica que tenta definir o relacionamento entre Deus e a sua acção criadora ou a sua actividade criativa".


Não podemos utilizar a noção espaço/tempo para tentar definir este relacionamento entre Deus e a sua actividade criadora.



2. Sobre o tempo e o espaço

É impossível pensar no espaço e tempo sem cair em contradições insolúveis, especialmente quando as queremos enquadrar em conceitos como a eternidade o infinito.



a. Sobre o tempo

Sobre a relação tempo, nós podemos ter uma noção consciente em nossa mente de que o tempo é uma medida que vai de um acontecimento ao outro. "Mas já não conseguimos relacionar o tempo com a eternidade, pois a eternidade não contém tempo, pura e simplesmente".


É por essa razão que o tempo é uma medida finita, com princípio e fim. A nossa criação existe no tempo.


Mas Deus existe fora do tempo.


E será que fora desta nossa dimensão "o tempo", Deus não trabalha, não faz nada?


Claro que Deus trabalha, Deus cria, pois é impossível conceber um Deus eterno, sem conceber uma actividade criadora contínua - seja dentro ou fora do tempo.



b. Sobre o espaço

Acerca da relação espaço, embora tenhamos uma ideia mental sobre esta medida que também é finita, é mais difícil para a nossa mente conceber/compreender o espaço do que o tempo. É muito difícil para nós conceber um espaço infinito, porque somos finitos. Para nós o espaço termina algures.


Mas, por outro lado, é difícil conceber um espaço que termina algures, porque surge logo a pergunta da criança, “Pai, o que existe lá fora?”.


Vimos a pergunta da criança na sebenta 5 A ideia de Deus e o Universo no meu blog, e cuja resposta à pergunta da criança é devidamente explicada nessa sebenta.


Vamos falar sobre algumas ideias acerca do espaço:


Os telescópicos mais potentes, ainda não conseguiram, nem conseguirão, penetrar todo o espaço. Depois das Galáxias vêm os Quasares e quando atingirem para lá dos quasares, haverá uma outra coisa.


Nós poderíamos perguntar “será que Deus criou o espaço da nossa criação finito, mas para além do nosso espaço há outro espaço?!”.


Se houvesse outro espaço teria de ser constituído de uma outra natureza. Mas isto nos levaria à ideia de uma outra dimensão. E a partir da altura em que se começa a pensar numa outra dimensão, não podemos pensar que esta outra dimensão é a continuação da nossa dimensão.


"Se houver outras dimensões na criação, estas não começam de certeza onde a nossa termina".


Serão simplesmente dimensões com propriedades totalmente diferentes à nossa.



3. Como acabar com as contradições no pensamento

Se quisermos acabar com algumas contradições no pensamento, ao tentar relacionarmos:


"Deus/criador/eternidade/infinito" com a dimensão: "homem/criação/tempo/espaço".

Teremos que fazer um esforço mental, e imaginar o seguinte:


"que o homem/criação/espaço/tempo são o existente real" - são o imanente e o aparente.


"e que Deus/criador/eternidade/infinito são a a essência da realidade" – é o transcendente, o essencial e necessecário.


Conclusão: por isso,  como existe em nosso pensamento a dificuldade do primeiro - homem, tempo, espaço, compreender o segundo - Deus, eternidade, infinito,


"o primeiro devia ser visto no pensamento como uma ilusão verdadeira proveniente do segundo", pois Deus/eternidade/infinito é que é a primeira realidade, a essência de tudo.


Mas, como não podermos compreender Deus/eternidade/infinito pelo pensamento "a tendência é ver esta dimensão como uma ilusão, em que muitos dizem ser uma ilusão falsa do nosso pensamento, uma sugestão, uma ideia abstracta que que não existe na realidade"


Mas Deus existe, e é a essência das coisas, pois é eterno e infinito, o homem/criação/tempo/espaço são dimensões temporárias,


Portanto, o tempo/espaço não passam de certo modo de uma ilusão, de um sonho temporário. “Os céus e a terra passarão” diz a Bíblia. E, quando os céus e a terra passarem, e os crentes estiverem na outra dimensão, compreenderão que aquilo que parecia ilusão, Deus/eternidade/infinito/céu, "é que são a realidade, a verdadeira essência das coisas".


b. Resumindo a complexidade da dimensão temporal com a divina


Resumindo, o tempo, o espaço, as coisas, os anjos, são actos pontuais da criação de Deus. São coisas finitas. Mas, para além desses actos criadores há outros actos da criação de Deus que não conhecemos nem imaginamos o que são.


Deus é desde toda a Eternidade um Deus activo.


E Deus nunca viveu no tempo e muito menos em nenhum espaço como nós. Pura e simplesmente não existe tempo, nem espaço para Deus. São medidas que ele criou, como criou outras coisas.


"Se quisermos compreender melhor, para Deus só existe uma medida que é o presente ou o Ser. Para Ele, afinal não há passado, nem há futuro".


Se concebermos a noção de tempo/espaço como fazem alguns materialistas e racionalistas, que dizem que não há mais nada para além disso, Deus não existe, "cairemos na mentira que nos ensinou o filósofo que disse: tudo existe nada se perde tudo se transforma".

 
C. É a criação cosmocêntrica?


1. Não podemos limitar a criação de Deus somente ao universo

Os eruditos bíblicos devem ter cuidado, para não dar uma ênfase tão grande à criação do homem e do seu cosmo, que leve o cristão a tornarem-se "cosmocentristas".


Como já foi referido noutros capítulos, não podemos limitar toda a actividade criadora de Deus à criação do homem. Isto seria quase dizer que se Deus só existe para o homem, o homem então acaba por ser um deus.


O homem não é certamente o único propósito de toda a criação de Deus, durante todas as Suas eternidades.


A nossa existência é teocêntrica e não cosmocênctrica. É Deus que está no centro de tudo e não o nosso cosmos ou o homem!


"O homem não passa de uma criação como os anjos e tantas outras criações de Deus"


"Se Deus existe eternamente em função da criação temporal e espacial do homem, o que fazia ou fez Deus, nos momentos da eternidade em que o homem e a terra, o tempo e o espaço ainda não existiam"?


Filosoficamente falando, não se pode resumir os actos criadores de um Deus, transcendente e eternamente imanente, à criação de um pequeno homem finito e criado tão recentemente!



2. Deus é o centro de tudo e não o homem.

Deus é o centro de tudo.

"Tudo é feito por Ele e para Ele". Romanos 11:33-36.


O homem criado no tempo, finito, não é mais do que uma das múltiplas expressões imanentes da sua criação.


A revelação bíblica é sem dúvida verdadeira e coerente com a história humana, mas não é uma revelação global do Absoluto.


"É somente uma revelação parcial deste Absoluto".


Génesis relata actos de Deus localizados no tempo e no espaço. Não faz qualquer referência a actos de Deus fora do nosso tempo e do nosso espaço.


Desta forma, se a Bíblia é uma revelação parcial do Absoluto, não podemos formar teorias sobre o restante do Absoluto que não nos foi revelado. Aliás, nem vale a pena pensar muito no restante da realidade que não conhecemos, pois sendo homens e tendo uma revelação no espaço e no tempo vinda de um Deus absoluto, temos que nos contentar com essa revelação.


"As coisas ocultas são para Deus e as reveladas são para nós" Deuteronómio 29:29.


"Paulo, por exemplo, fala de coisas inefáveis, referindo-se a coisas que viu e ouviu quando foi arrebatado aos céus". II Cor 12:1-4.


Coisas inefáveis ouvidas e vistas por Paulo, não puderam ser traduzidas para a experiência humana. Ele mesmo disse: "eu ouvi e vi coisas que o homem não pode transmitir pela linguagem humana".


Deus é o único ser Absoluto, o homem é relativo e finito e tem limites que não pode transpor. Ele nunca será Deus.


O crente, mesmo no céu, nunca terá todos os atributos de Deus, nunca será igual a Deus, nem nunca poderá compreender Deus em toda a Sua Totalidade e Absoluto, "senão Deus deixaria de ser Deus, e o homem passaria a ser Deus".


Isaías 42:8 "Eu sou o SENHOR, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem".



D. Sobre a providência divina


1. A providência é acima de tudo um conceito Bíblico e Cristã

Embora o cuidado que Deus tem com a sua criação é um aspecto salientado em quase todas as religiões, esta ideia da providência é acima de tudo um conceito Bíblico e Cristão.


A ideia de providência, ou seja, de um Deus que cuida da sua criação e a controla, aparece através de todas as páginas do Antigo e do Novo Testamento.



2. Soberania de Deus e a responsabilidade humana 

É difícil fazer uma conexão entre as ideias da soberania de Deus e a liberdade/responsabilidade do homem.


"Pois existe uma espécie de dicotomia, ou seja existe uma contradiçã na nossa menteo, quando procuramos formar uma conexão entre soberania divina e responsabilidade humana".


Corre-se o perigo de procurar solucionar a dicotomia existente, ou exagerando o lado da soberania divina, ou exagerando o lado da liberdade humana, nascendo daí doutrinas erradas, que afectam as doutrinas salvacionais do cristianismo, nomeadamente as doutrinas da fé e da graça.


Mas este assunto é tratado num outro capítulo. O que estamos a querer salientar aqui é que a criação é um acto da providência divina. Ou seja, de um Deus criador, que cria, cuida e controla aquilo que criou. Não há nada que acontece com a sua criação que escapa aos seus cuidados e ao seu controle.


Esta ideia aparece bem salientada nas páginas do Antigo Testamento e do Novo Testamento.



INDICE


Capítulo 1 INTRODUÇÃO

A Definição de Filosofia
O Cristianismo e a Filosofia

Capítulo 2 CRISTIANISMO E RELIGIÃO

As origens da Religião
Definição de Religião
Religião a vida humana e seus interesses
Religião e Ciência
Religião e Filosofia
Religião e Cultura
Religião e Revelação
Religião e Moralidade

Capítulo 3 CRISTIANISMO E FILOSOFIA
O Campo da Filosofia
O Cristianismo e o conhecimento
A Natureza do conhecimento
O Conhecimento religioso

Capítulo 4 A IDEIA DE DEUS
Deus e a razão humana.
As primeiras perguntas.
Provas teístas
Os Diversos argumentos
Natureza e atributos de Deus
Conceito moderno quasi-teísmo
É Deus inefável?
A natureza da experiência

Capítulo 5 A IDEIA DO UNIVERSO
Dualismo.
Monismo.
Pluralismo
Materialismo
Novo conflito – idealismo e realismo


Capítulo 6 A IDEIA DO HOMEM
A questão do pecado original
Conversão do homem segundo o cristianismo
Relação do homem e a sociedade
A personalidade e o livre arbítrio


Capítulo 7 IDEIA DO BOM E DO MAL
As teorias do bom
O mal o sofrimento e Deus
As preposições: o mal existe e Deus existe
Razões filosóficas válidas
Razões bíblicas válidas p/existência do mal


Capítulo 8 DEUS E O MUNDO
O panteísmo.
O deísmo
O monoteísmo

Capítulo 9 DEUS E O HOMEM
A concepção da teologia natural
A relação entre a razão e a revelação
Relação entre Deus e a humanidade
É Deus finito ou é infinito

Capítulo 10 OS MILAGRES E A CIÊNCIA
Evidências para os milagres
A ressurreição de Cristo
O método do processo histórico
Provas históricas evidentes da ressurreição de Cristo.


Capítulo 11 A IDEIA DO ALÉM
As relações dos conhecimentos com a morte
O Cristianismo e a morte


Capítulo 12 ASSUNTOS CONTROVERSOS
A posição sobre diversos campos:Aborto, eutanásia, sodomia, divórcio, bebé proveta, manipulação genética, clonagem, guerra, paz, terrorismo, globalismo.

FIM

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